Computação afetiva: sistema criado na USP identifica sinais de depressão nas redes sociais

Crédito: Imagem ilustrativa

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Terapeutas, psicólogos e psiquiatras poder√£o contar com uma nova ferramenta para auxiliar no tratamento de seus pacientes: um sistema que utiliza Intelig√™ncia Artificial para identificar sinais de depress√£o nas redes sociais. A tecnologia, desenvolvida durante a pesquisa de doutorado realizada por Felipe Giuntini, no Instituto de Ci√™ncias Matem√°ticas e de Computa√ß√£o (ICMC) da USP, em S√£o Carlos, é capaz de avaliar a saúde mental dos usu√°rios por meio da interpreta√ß√£o de textos e emoticons que s√£o publicados nas plataformas.

O novo sistema é composto de uma série de códigos de computador (algoritmos) que foram testados para analisar o comportamento de 415 mil usu√°rios da rede social Reddit. Essa etapa serviu para "treinar" a tecnologia a fim de que ela determine se uma pessoa apresenta comportamentos depressivos. Históricos de até dez anos de postagens foram avaliados, permitindo uma prepara√ß√£o robusta dos algoritmos, que podem ser aplicados em qualquer rede social.

Os principais resultados obtidos nas an√°lises foram os seguintes: usu√°rios com depress√£o tendem a se aproximar de quem tem o mesmo problema, comentando e interagindo, por exemplo, com posts de teor negativo. O sistema também identificou, a partir das palavras e express√Ķes que eram compartilhadas, os sentimentos mais presentes entre os depressivos, que foram: vergonha, culpa, tristeza e nervosismo. Por último, foi possível observar que os usu√°rios com o transtorno ficavam, pelo menos, tr√™s dias sem postar nas mídias sociais após terem compartilhado algum conteúdo que apresentava sentimentos de culpa.

Diferentemente dos métodos conhecidos na literatura científica, que focam apenas a classifica√ß√£o de postagens isoladas para determinar se elas s√£o depressivas, o sistema criado por Giuntini permite a observa√ß√£o de um conjunto de publica√ß√Ķes ao longo do tempo, o que é fundamental para que os profissionais de saúde acompanhem a evolu√ß√£o de seus pacientes durante o tratamento, verificando possíveis mudan√ßas de humor. Além disso, os novos algoritmos desenvolvidos na USP também consideram, nas an√°lises, aspectos da personalidade do usu√°rio, bem como o contexto da publica√ß√£o, para classificar suas características emocionais, permitindo uma avalia√ß√£o mais precisa do conteúdo publicado. A plataforma também consegue prever com 83% de precis√£o qual a tend√™ncia de comportamento das pessoas em postagens futuras.

"O constante crescimento do uso e compartilhamento de dados em redes sociais tem fornecido oportunidades para o desenvolvimento de solu√ß√Ķes inteligentes capazes de compreender o comportamento humano on-line, uma vez que os usu√°rios compartilham aspectos sociais, sentimentos e opini√Ķes diariamente, facilitando estudos na √°rea conhecida como computa√ß√£o afetiva", explica o pesquisador, que foi orientado pelo professor Jó Ueyama, do ICMC. Segundo os cientistas do instituto, o novo sistema poder√° ser utilizado como um aplicativo de celular ou como um programa de computador. Eles est√£o abertos a possíveis parcerias para que a tecnologia seja implementada no mercado.

A pesquisa An approach to the sequential evaluation of emotional behaviors of depressive users on social networks in groups and individually est√° disponível para consulta neste link.

O trabalho contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordena√ß√£o de Aperfei√ßoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Funda√ß√£o de Amparo à Pesquisa do Estado de S√£o Paulo (Fapesp), por meio do Centro de Ci√™ncias Matem√°ticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), sediado no ICMC, e do Sidia Instituto de Ci√™ncia e Tecnologia. O estudo contou ainda com a colabora√ß√£o de cientistas do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de S√£o Carlos (UFSCar), do Dartmouth College, dos EUA, além das professoras Agma Traina e Mirela Cazzolato, ambas do ICMC.

Depress√£o no Brasil

De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 16,3 milh√Ķes de pessoas com depress√£o. O número representa um aumento de cerca de 34% com rela√ß√£o ao levantamento anterior, produzido em 2013. A faixa et√°ria com maior propor√ß√£o de diagnósticos confirmados foi a de 60 a 64 anos, enquanto o menor porcentual foi obtido na de 18 a 29 anos de idade.

Outra pesquisa, publicada no início deste ano e que contou com a participa√ß√£o de pesquisadores da Escola de Artes, Ci√™ncias e Humanidades (EACH) da USP, em S√£o Paulo, avaliou, entre os meses de junho e agosto de 2020, os índices de ansiedade e depress√£o da popula√ß√£o de 11 países: Brasil, Bulg√°ria, China, Índia, Irlanda, Macedônia do Norte, Mal√°sia, Cingapura, Espanha, Turquia e Estados Unidos.

O objetivo foi analisar como as restri√ß√Ķes de mobilidade impostas pela pandemia de covid-19 estavam impactando a saúde mental das pessoas. Os resultados mostraram que a popula√ß√£o brasileira apresentou o maior número de casos confirmados entre os países participantes do estudo. Ao todo, 63% dos habitantes ouvidos tinham registros de ansiedade, enquanto 59%, de depress√£o.