Agência Brasil explica as vacinas contra covid-19 usadas no Brasil

Especialistas garantem que todos os imunizantes s√£o eficazes

Portal Vividense

Portal Vividense

Seis meses depois da primeira dose de vacina contra covid-19 aplicada no pa√≠s, em 17 de janeiro, os benef√≠cios da vacina√ß√£o no combate à pandemia s√£o claros em hospitais do Sistema √önico de Sa√ļde (SUS), e, pela primeira vez desde dezembro de 2020, nenhum estado brasileiro est√° com mais de 90% dos leitos de unidade de terapia intensiva ocupados. A prote√ß√£o conferida pelas vacinas j√° tinha sido observada quando o percentual de idosos em rela√ß√£o ao total de internados caiu após a vacina√ß√£o dessa faixa et√°ria, e o cen√°rio atual confirma novamente que as vacinas produzem n√≠veis elevados de prote√ß√£o contra casos graves da doen√ßa, que j√° matou mais de 500 mil pessoas no pa√≠s.

Os mais de 82 milh√Ķes de brasileiros que receberam ao menos uma dose tiveram seus sistemas imunológicos estimulados por tr√™s diferentes tecnologias - duas delas inéditas em campanhas de vacina√ß√£o no pa√≠s e no mundo até a pandemia. A Ag√™ncia Brasil explica as diferen√ßas entre CoronaVac, AstraZeneca, Pfizer e Janssen, e por que todas s√£o consideradas seguras e eficazes para se proteger da covid-19.

Todas protegem contra casos graves

Apesar dos mal compreendidos percentuais de efic√°cia de cada uma dessas vacinas, a diretora da Sociedade Brasileira de Imuniza√ß√Ķes (SBIm), Mônica Levi, explica que as quatro foram submetidas a rigorosos protocolos de testagem, com resultados checados por ag√™ncias reguladoras de credibilidade reconhecida, como a Ag√™ncia Nacional de Vigil√Ęncia Sanit√°ria (Anvisa). O processo de desenvolvimento de uma vacina inclui testes em laboratório e tr√™s etapas de testes em humanos, envolvendo milhares de volunt√°rios, e os resultados s√£o analisados pela comunidade cient√≠fica e por órg√£os reguladores de diferentes pa√≠ses.

Diante disso, a médica ressalta que recusar uma vacina espec√≠fica ou atrasar a aplica√ß√£o para esperar outra vacina s√£o decis√Ķes que n√£o fazem sentido e amea√ßam a sa√ļde individual e coletiva.

"Qualquer um de nós pode ter uma forma grave e pode ir a óbito. N√£o d√° para negar uma vacina que vai te proteger principalmente desses desfechos. Todas as vacinas utilizadas no pa√≠s est√£o mostrando efetividade para formas graves e para mortes, o que, nesse momento, é o que a gente mais se preocupa. Esse é o objetivo principal, e todas est√£o cumprindo o seu papel", afirma a diretora da SBIm. "A escolha de recusar e adoecer n√£o é só sua. Voc√™ vai fazer outros adoecerem também."

Vacina eficaz

Mônica Levi desmistifica a taxa de efic√°cia da CoronaVac, cuja interpreta√ß√£o errada tem levado pessoas a preferirem outras vacinas e até a recusarem a vacina√ß√£o. Segundo estudos de fase 3 realizados pelo Butantan, a vacina tem efic√°cia de 50,38% contra infec√ß√Ķes do SARS-CoV-2. O percentual pode parecer baixo frente a imunizantes que tiveram mais de 90% de efic√°cia na fase tr√™s, mas os mesmos estudos conduzidos pelo instituto paulista também mostraram que a vacina protegeu 100% dos volunt√°rios contra casos graves e teve uma efic√°cia de 78% contra casos leves de covid-19. A prote√ß√£o da vacina "no mundo real", chamada de efetividade, foi confirmada pelo estudo realizado em Serrana, em que a aplica√ß√£o em massa da CoronaVac fez os casos sintom√°ticos de covid-19 ca√≠rem 80%, as interna√ß√Ķes, 86%, e as mortes, 95%.


A diretora da SBIm explica que o percentual que resulta dos estudos cl√≠nicos de fase 3 n√£o pode ser usado para classificar as vacinas, porque o n√ļmero também sofre impacto do desenho desses estudos, como os critérios para a testagem dos volunt√°rios e o perfil da popula√ß√£o analisada. Como os testes cl√≠nicos da vacina no Brasil tiveram como principal p√ļblico os profissionais de sa√ļde da linha de frente na pandemia, ela explica que é natural que o percentual de efic√°cia calculado tenha sido menor que o de outros imunizantes, j√° que seus volunt√°rios estavam mais expostos.


"Se voc√™ pega um grupo de 100 pessoas que todos os dias est√£o em contato com a covid-19, e um grupo de 100 pessoas que est√£o mantendo distanciamento em casa, obviamente o grupo que est√° mais exposto vai ter √≠ndices maiores de infec√ß√£o, independentemente de que vacina for", afirma a pesquisadora, que exemplifica que testes em diferentes pa√≠ses chegaram a percentuais diferentes para as mesma vacinas porque, além disso, h√° diferen√ßas de contexto epidemiológico, faixas et√°rias pesquisadas e comportamento da popula√ß√£o estudada.


"É um erro comparar [taxas de efic√°cia]. Os desenhos dos estudos, as popula√ß√Ķes estudadas e os riscos de infec√ß√£o eram muito diferentes. Se voc√™ colocasse a Pfizer, a AstraZeneca e a Janssen com a mesma popula√ß√£o em que foi estudada a CoronaVac aqui no Brasil, os resultados delas n√£o seriam os mesmos [que os publicados após a fase 3]", pondera ela, que esclarece que esses percentuais s√£o, sim, importantes, porque s√£o necess√°rios para a avalia√ß√£o dos órg√£os regulatórios, que exigem um m√≠nimo de 50% de efic√°cia. Apesar disso, o mais importante é a efetividade da vacina no mundo real, verificada na vacina√ß√£o em massa e em experimentos como o da CoronaVac em Serrana e da AstraZeneca em Botucatu e Paquet√°.

Além da efetividade contra casos graves, outra semelhan√ßa entre as vacinas usadas no pa√≠s e no mundo de modo geral é o alvo dos imunizantes: a prote√≠na S, que forma os espinhos usados pelo coronav√≠rus na hora de se ligar às células humanas. Ainda que com mecanismos diferentes, Pfizer, Janssen e Oxford/AstraZeneca estimulam nossas células a conhecerem essa prote√≠na e a se prepararem para neutraliz√°-la, enquanto a CoronaVac apresenta ao nosso organismo todo o v√≠rus, j√° inativado por rea√ß√Ķes qu√≠micas, fazendo com que nossas defesas reconhe√ßam a prote√≠na S e outras estruturas.

Infogr√°fico mostra os diferentes tipos de vacinas oferecidas no Brasil.
Infográfico mostra os diferentes tipos de vacinas oferecidas no Brasil. - Arte - Agência Brasil


CoronaVac

A primeira vacina contra o SARS-CoV-2 aplicada no Brasil fora dos testes cl√≠nicos foi a CoronaVac. A vacina foi desenvolvida pelo laboratório chin√™s Sinovac, que foi parceiro do Instituto Butantan nos testes e na produ√ß√£o da vacina.

Como foi a primeira a ser entregue em grande quantidade, somando mais de 36 milh√Ķes das 44 milh√Ķes (82%) de doses recebidas pelo Ministério da Sa√ļde até o fim de mar√ßo, a vacina do Butantan atendeu aos primeiros da fila das prioridades e protegeu grupos de maior risco no segundo pico da pandemia, quando a média móvel de mortes superou 3 mil v√≠timas di√°rias.

"Salvou muitas vidas, e a gente viu baixar a idade média das interna√ß√Ķes em UTIs e mortes para os 40 e 50 anos, porque um percentual muito grande dos idosos j√° estavam vacinados", lembra Mônica Levi.

Desde ent√£o, mais de 44 milh√Ķes de doses da CoronaVac foram aplicadas no pa√≠s, o que equivale a cerca de 40% de todas as aplica√ß√Ķes realizadas. O Ministério da Sa√ļde continua a receber e a distribuir a vacina, j√° que contratou 100 milh√Ķes de doses junto ao Instituto Butantan.

O imunizante é o √ļnico dos utilizados até o momento no pa√≠s que se baseia em uma tecnologia que j√° era usada no Programa Nacional de Imuniza√ß√Ķes. Trata-se de uma vacina de v√≠rus inativado, que contém o microorganismo "morto", para que nossas defesas consigam conhec√™-lo e se preparar para uma infec√ß√£o.

A CoronaVac requer duas doses, que devem ser aplicadas em um intervalo de duas a quatro semanas, segundo a bula, que foi aprovada com autoriza√ß√£o de uso emergencial pela Ag√™ncia Nacional de Vigil√Ęncia Sanit√°ria (Anvisa).


Oxford/AstraZeneca

Ainda em janeiro, o Brasil também aplicou a primeira dose da vacina Oxford/AstraZeneca contra covid-19. As primeiras doses usadas no pa√≠s vieram do Instituto Serum, na √ćndia, mas, a partir de mar√ßo, chegaram aos postos de vacina√ß√£o as doses produzidas no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Funda√ß√£o Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz).

Também chamada de vacina de Oxford, Covishield e vacina covid-19 (recombinante), a Oxford/AstraZeneca foi uma das primeiras vacinas de vetor viral a serem usadas em campanhas de vacina√ß√£o no mundo, junto da Janssen e da Sputnik V. O nome vetor viral significa que outro v√≠rus é usado para transportar as informa√ß√Ķes genéticas do SARS-CoV-2, que far√£o nossas defesas reagirem. No caso dessa vacina, o vetor usado é um adenov√≠rus de chimpanzé que n√£o é capaz de se replicar e foi modificado em laboratório.

Com mais de 52 milh√Ķes de doses aplicadas, a Oxford/AstraZeneca era a vacina mais usada no pa√≠s, segundo dados consultados em 15 de julho no vacinômetro do LocalizaSUS. Isso equivale a 46% das doses aplicadas. O Brasil contratou 100,4 milh√Ķes de doses dessa vacina por meio de um acordo de encomenda tecnológica assinado no ano passado com a farmac√™utica europeia, montante que deve terminar de ser produzido em Bio-Manguinhos em agosto, a partir de ingrediente farmac√™utico ativo (IFA) importado do laboratório chin√™s WuXi Biologics.

Segundo a Fiocruz, o pa√≠s acrescentou à encomenda mais 70 milh√Ķes de doses que devem ser produzidas ainda este ano com mais lotes de IFA importado. Além disso, cerca de 50 milh√Ķes de doses dessa vacina devem ser inteiramente fabricadas no pa√≠s até o fim de 2021. Por fim, mais 14 milh√Ķes de doses dessa vacina devem chegar ao Brasil por meio do consórcio internacional Covax Facility, ao qual o governo encomendou vacinas para cerca de 10% da popula√ß√£o. Desse modo, a vacina de Oxford responde por mais de um ter√ßo das mais de 660 milh√Ķes de doses previstas pelo Plano Nacional de Operacionaliza√ß√£o da Vacina√ß√£o contra Covid-19 para 2021.

A Oxford/AstraZeneca também foi testada em volunt√°rios brasileiros no ano passado e recebeu registro definitivo da Anvisa neste ano. O esquema vacinal proposto prev√™ duas doses, aplicadas com intervalos de quatro a 12 semanas. Entre janeiro e junho, a vacina foi administrada com 12 semanas de intervalo, mas, a partir de julho, alguns estados e munic√≠pios decidiram encurtar esse per√≠odo para oito semanas, diante da chegada da variante Delta do SARS-CoV-2 ao Brasil.


Pfizer/BioNTech

A terceira vacina contra covid-19 aplicada nos brasileiros foi a da Pfizer/Biontech, que come√ßou a ser usada no pa√≠s em maio, mas também foi testada em brasileiros no ano passado. A plataforma tecnológica por tr√°s dessa vacina é considerada inovadora, j√° que as doses cont√™m apenas part√≠culas de RNA mensageiro do coronav√≠rus produzidas sinteticamente. Esse √°cido nucleico sintético leva informa√ß√Ķes que permitem que nossas células repliquem a prote√≠na S e a reconhe√ßam para preparar as defesas do organismo.

O governo brasileiro contratou junto à Pfizer a importa√ß√£o de 200 milh√Ķes de doses, sendo 100 milh√Ķes até setembro e mais 100 milh√Ķes no √ļltimo trimestre do ano. Além disso, 842 mil doses chegaram ao Brasil via Covax Facility. Até 15 de julho, 11 milh√Ķes de doses dessa vacina haviam sido aplicadas, o que corresponde a cerca de 10% do total de vacinas contra covid-19 administradas no pa√≠s.

A vacina da Pfizer também requer a aplica√ß√£o de duas doses, cujo intervalo sugerido pelo fabricante é de 21 dias. Apesar disso, pa√≠ses como o Brasil, o Reino Unido e o Canad√° decidiram estender esse prazo, com base em pesquisas que apontam que a vacina j√° produz imunidade na primeira dose. Mesmo assim, a segunda dose continua a ser necess√°ria para que a vacina atinja a prote√ß√£o ideal, e, no caso do Brasil, o prazo para receb√™-la é 12 semanas depois da primeira.


Janssen

Assim como a Oxford/AstraZeneca, a vacina da Janssen foi testada no Brasil e em outros pa√≠ses e apresenta a tecnologia de vetor viral, com base em um adenov√≠rus de humanos, em vez do v√≠rus de chimpanzés. A principal diferen√ßa dessa vacina em rela√ß√£o às demais é o seu esquema vacinal, que prev√™ uma dose √ļnica, em vez de duas doses. Além disso, a Janssen n√£o é produzida no Brasil e chega ao pa√≠s j√° pronta para aplica√ß√£o.

O imunizante começou a ser usado no PNI em junho, sob autorização de uso emergencial concedida pela Anvisa.

Mais de 3,6 milh√Ķes de doses foram aplicadas até 15 de julho, segundo o LocalizaSUS, o que faz da vacina a menos usada no pa√≠s até agora, respondendo por 3% das doses aplicadas. O Brasil recebeu no m√™s passado de 3 milh√Ķes de doses que foram doadas pelo governo dos Estados Unidos, e, até o fim do ano, devem chegar 38 milh√Ķes de doses compradas pelo governo brasileiro.