Youtubers divulgam ciência para ensinar de forma divertida

Canais usam humor e recursos visuais para atrair p√ļblico

Astrônoma Karolina Garcia e estudante de física Pedro Pinheiro produzem vídeos divertidos para divulgar ciência (Crédito: Divulgação)

Astrônoma Karolina Garcia e estudante de física Pedro Pinheiro produzem vídeos divertidos para divulgar ciência (Crédito: Divulgação)

Jovens, conectados e divertidos. Assim s√£o os novos astrônomos e astrônomas que, por diversos canais do YouTube, divulgam ci√™ncia e astronomia. Um desses canais, o AstroTubers re√ļne pesquisadores e profissionais da √°rea astronômica na produ√ß√£o de v√≠deos na plataforma. O objetivo do canal é tornar acess√≠vel ao p√ļblico, com linguagem f√°cil de entender, pesquisas e outros estudos acad√™micos sobre f√≠sica e astronomia, além de esclarecer not√≠cias falsas que circulam na internet.

Entre os estudantes h√° graduandos e pós-graduandos de f√≠sica e de astronomia de diversas universidades do Brasil e até fora do pa√≠s. Um deles é o Pedro Pinheiro Cabral, de Natal (RN), é estudante do bacharelado em F√≠sica na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e tem 22 anos. Um dos seus v√≠deos no canal é Por que o céu é azul e as nuvens brancas?

Para ele, o papel de qualquer divulgadora ou divulgador cient√≠fico é de enriquecer os conhecimentos cient√≠ficos daqueles que consomem o conte√ļdo, de maneira que também os estimulem a consumir cada vez mais material desse tipo. "Mas, n√£o basta apenas que o consumidor de divulga√ß√£o cient√≠fica descubra as "curiosidades" da ci√™ncia, é preciso também que ele compreenda como a ci√™ncia funciona e desenvolva um racioc√≠nio cr√≠tico que é valioso na sociedade contempor√Ęnea", afirma.

Na opini√£o do estudante, o Brasil tem entraves para que as pessoas aprendam mais sobre ci√™ncia. "A situa√ß√£o é que, nas salas de aula, os professores precisam preparar os alunos para o ENEM; n√£o podemos contar também apenas com livros de divulga√ß√£o cient√≠fica, tendo em vista que apenas uma minoria da nossa popula√ß√£o l√™ livros com frequ√™ncia; na televis√£o aberta brasileira ent√£o o espa√ßo para divulga√ß√£o cient√≠fica é m√≠nimo e n√£o parece aumentar. Resta ent√£o como objetivo para a divulga√ß√£o cient√≠fica pelo YouTube suprir todo ou boa parte deste v√°cuo que existe pelo menos para a parte da popula√ß√£o j√° inclu√≠da digitalmente, j√° que no YouTube se consegue publicar conte√ļdos que engajem as pessoas, produzidos a baixos custos e de f√°cil acesso para todos os que tem internet".

Em seus v√≠deos, Pedro usa recursos visuais para facilitar o entendimento sempre que poss√≠vel e n√£o usa jarg√Ķes "para n√£o assustar ninguém", diz. "Busco usar analogias que conectem o que eu explico a algo mais do senso comum, e assim vou tentando quebrar em pedacinhos algum conhecimento cient√≠fico, de maneira que o meu p√ļblico-alvo consiga compreender. Em outros v√≠deos tento usar o humor, enfim, estratégias para cativar o espectador e faz√™-lo se interessar mais por ci√™ncia e entend√™-la melhor em toda a sua beleza".

Pedro conta que no AstroTubers tem uma etapa que é muito importante. "Como somos dezenas de membros acad√™micos de F√≠sica e Astronomia espalhados pelo pa√≠s, temos internamente uma comiss√£o de revis√£o formada por alguns dos nossos membros que sempre leem os roteiros, corrigindo eventuais erros e sugerindo melhorias antes que o v√≠deo seja gravado e torne a corre√ß√£o ou melhoria mais dif√≠cil".

Colega de canal de Pedro, Karolina Garcia é mestra em Astronomia e doutoranda na Universidade da Florida (EUA), onde também trabalha. Ela é mineira, mas morou a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde fez Engenharia na PUC-Rio e mestrado em Astronomia na universidade federal do estado. Um de seus v√≠deos no canal é Por que as estrelas brilham?

Na opini√£o dela, os canais que fazem divulga√ß√£o cient√≠fica no YouTube t√™m o papel de aproximar a ci√™ncia do p√ļblico em geral de uma forma que as pessoas tenham gosto por aprender.

"O AstroTubers, no entanto, vai além, porque seu papel n√£o é só o de informar sobre ci√™ncia, mas também de trazer as pessoas para perto do que é o nosso trabalho di√°rio como astrônomos/f√≠sicos. Além de divulgadores, nós somos cientistas, e isso nos permite mostrar ao p√ļblico n√£o só o resultado de um experimento ou estudo, mas como ele foi feito, como o método cient√≠fico foi aplicado, que tipos de questionamentos podemos fazer acerca dele etc. Usamos o AstroTubers para mostrar que existe muita pesquisa no Brasil".

Para ela, o que ajuda no interesse é que o tópico principal é Astronomia. "É dif√≠cil encontrar alguém que n√£o se encante com o céu, ou que tenha curiosidade sobre os mistérios do universo. O desafio est√° em unir essa paix√£o que o nosso p√ļblico tem pela Astronomia com a ci√™ncia que h√° por tr√°s de cada assunto/descoberta, de uma forma que seja leve e descontra√≠da".

Mas, apresentar assuntos complexos em v√≠deos de poucos minutos é um desafio, aponta a pesquisadora. "É um desafio di√°rio encontrar um equil√≠brio entre o tempo de v√≠deo, a densidade de conte√ļdo e a maneira de apresent√°-lo. Eu diria que o segredo est√° em dividir certos assuntos em partes menores, para que o conte√ļdo em um v√≠deo só n√£o fique t√£o denso e que possamos focar em passar esse conte√ļdo de forma did√°tica e prazerosa. Dessa forma, conseguimos apresentar todos os tópicos que achamos importante, e o p√ļblico tem a oportunidade de rever outros v√≠deos da série quando quiser!", detalha.

Responsabilidade na divulgação científica

O estudante de f√≠sica Pedro defende que um formador de opini√£o na √°rea cient√≠fica precisa sempre ter muita responsabilidade com o que diz. "Qualquer falha acidental pode acabar sendo amplificada por pessoas às vezes mal-intencionadas e se tornar mais uma fake news. Às vezes nem é uma falha, mas sim uma fala tirada do contexto.. Ent√£o essa responsabilidade ao meu ver precisa ser redobrada. É muito confuso para o p√ļblico leigo ver duas pessoas com uma mesma especialidade divulgando informa√ß√Ķes contraditórias, como por exemplo vimos infectologistas divulgando informa√ß√Ķes a favor e contra supostos tratamentos precoces da covid-19".

Com isso, Pedro completa, "mesmo que para cada 100 infectologistas com uma argumenta√ß√£o exista apenas um com argumenta√ß√£o oposta, as pessoas acabam apenas escolhendo confiar naquele profissional que valida a sua opini√£o ou vis√£o prévia e ignorando os demais. Mas, na ci√™ncia nós n√£o podemos ser guiados por opini√Ķes, precisamos ser guiados por evid√™ncias, por dados obtidos de maneira honesta e estatisticamente significantes, para que n√£o tenha um risco significante de ter sido um mero produto do acaso. Ent√£o a import√Ęncia do trabalho neste sentido é buscar desenvolver este racioc√≠nio cr√≠tico da maneira de pensar que é a ci√™ncia nas pessoas", frisou.

Karolina completa que tem se tornado cada vez mais dif√≠cil filtrar o que é conte√ļdo de qualidade e o que n√£o é. "Por isso a necessidade de canais que n√£o só divulgam informa√ß√Ķes cient√≠ficas, mas que explicam o que h√° por tr√°s de cada conclus√£o. Mais importante do que informar, é desenvolver o pensamento cr√≠tico nas pessoas, para que elas consigam filtrar por si só os conte√ļdos que consomem. É isso que tentamos fazer no AstroTubers: mostrar que n√£o h√° uma verdade absoluta na ci√™ncia (que est√° em constante evolu√ß√£o), mas que toda conclus√£o cient√≠fica se baseia em hipóteses e deve possuir evid√™ncias que foram testadas. Nós combatemos as fake news ensinando diariamente o que é ci√™ncia e como nós fazemos ci√™ncia".

Além da astronomia

Mas, nem só os cientistas e astrônomos divulgam a ci√™ncia. Formada em administra√ß√£o, Mariana Fulfaro e o marido Iber√™ Thenório, jornalista e apresentador, contam que o canal do Manual do Mundo surgiu da ideia de ensinar as pessoas a fazerem as coisas em casa.

"Quando a gente veio de Piedade [cidade no interior do estado de S√£o Paulo) para S√£o Paulo e vimos que as pessoas acionavam o seguro para trocar pneus do carro e fazer pequenos consertos em casa. Em Piedade, todo mundo sabia fazer isso e ficamos impressionados com essa coisa de chamar alguém pra fazer. Além disso, nós juntamos uma série de habilidades que a gente j√° tinha: jornalismo, programa√ß√£o e cria√ß√£o de conte√ļdo para internet. Quando o YouTube come√ßou a bombar, l√° por 2008, a gente viu que muitas pessoas estavam ensinando coisas bacanas para fazer em casa. Resolvemos criar o nosso canal para ensinar também. Os 50 primeiros v√≠deos foram feitos com c√Ęmeras emprestadas e gravados no nosso apartamento de 35m¬≤, relembra Mariana, que é a diretora executiva do canal e também apresentadora.

Atualmente, a Manual do Mundo Produ√ß√Ķes é uma das maiores produtoras de entretenimento educativo do pa√≠s e tem mais de 18 milh√Ķes de seguidores em suas redes digitais, tendo acumulado mais de 2 bilh√Ķes de visualiza√ß√Ķes só em seu canal no YouTube.

Para produzir o conte√ļdo interessante sem abrir m√£o da consist√™ncia, o casal diz que trabalha diariamente em pesquisa e produ√ß√£o. "Temos uma equipe com consultores cient√≠ficos, produtores, jornalistas. Isso nos ajuda a monitorar o que est√° acontecendo e o que est√° chamando a aten√ß√£o das pessoas na internet e fora dela".

O canal ainda tem uma comunidade engajada que manda sugest√Ķes e ajuda até a conseguir materiais para os v√≠deos. "Um exemplo disso é o v√≠deo em que abrimos um cofre, que ainda ir√° ao ar no canal. O Iber√™ estava atr√°s de um cofre antigo h√° tempos e, depois de um post no Twitter, um seguidor doou um que estava trancado h√° 35 anos sem nem saber o que tinha dentro", conta Mariana.

Na opini√£o dela, o canal é importante em uma época com grande circula√ß√£o de informa√ß√Ķes falsas. "A ci√™ncia é a principal arma que temos para combater as informa√ß√Ķes falsas. Se as pessoas sentirem que ci√™ncia é algo divertido e √ļtil, conseguimos dar um suporte e ajudar, especialmente em uma época de pandemia. Um exemplo, é o v√≠deo em que explicamos os perigos de tentar fazer √°lcool gel em casa, na época em que receitas com gelatina estavam circulando nas redes sociais".

Apresentar assuntos complexos em v√≠deos curtos é um dos desafios do canal, por isso Mariana diz que sempre tenta atrelar o conhecimento com a realidade. "Consideramos que a nossa maior especialidade é conseguir mostrar o conceito na pr√°tica e isso ajuda a deixar os assuntos menos complexos. Fizemos isso, por exemplo, no v√≠deo sobre como funciona um formigueiro, em que pegamos uma I√ß√° e tentamos realmente criar um formigueiro. Foram mais de 70 dias para produzir este material e, mesmo que n√£o tenha dado certo, nós mostramos a formiga rainha".

Mariana acredita que os canais do YouTube conseguem disseminar e ampliar o acesso às informa√ß√Ķes cient√≠ficas, mas é necess√°rios descontra√ß√£o. "Por exemplo, o v√≠deo em que ensinamos como destilar √°gua do mar usando uma fogueira come√ßa com o Iber√™ [apresentador do canal] todo sujo, dando a entender que estava perdido em uma ilha deserta. Além de ensinar de um jeito divertido como fazer o processo de destila√ß√£o, também falamos porque n√£o se deve beber √°gua do mar e explicamos, com uma linguagem simples, o conceito de osmose. Se tivéssemos come√ßado de cara com o conceito, provavelmente, n√£o chamaria a aten√ß√£o do p√ļblico", finaliza.